5 de fevereiro de 2012

Sobre cães, pássaros e gatos

12 de Fevereiro

Hoje, um dos cães que cuido foi agressivo comigo. Ou melhor, comigo não, com todos os funcionários desta casa que cuida de animais. Primeiro, rosnou e latiu para os vigias noturnos; depois, quando tentaram lhe aplicar uma injeção para que se calasse, mordeu um dos guardas.

Foi então que me acordaram. Ninguém sabia como lidar com o tal cachorro enraivecido. Quando cheguei, ele ainda urrava e ameaçava atacar quem se aproximasse. Arrisquei chegar perto a fim de contê-lo, mas acabei sendo agredido. Infelizmente, tamanho foi seu surto que jamais conseguiríamos contê-lo... Tive que dar a fatídica ordem aos guardas de atirar no coitadinho.

Afinal, por que ele se revoltou logo contra nós, que o alimentamos, demos água e oferecemos um teto, quando o resto do mundo o desprezava? Ora, se não fosse pelo nosso acolhimento caridoso, ainda que determinado pelo Estado, não resistiria às adversidades do mundo! Ele só existia porque nos apiedamos dele; se o deixássemos à própria sorte, estaria fadado à extinção, tão frágil e dependente que sua espécie era. Será que jamais constatou e refletiu sobre tais fatos óbvios?

Acho que não. No fim das contas, era só um animal e animais não pensam. E é por isso é que os humanos é que são donos dos animais e não o contrário. Comandamos o mundo porque somos dotados da Razão. Poderia um ser inapto à sobrevivência na natureza, mas que tenta decepar a mão que o alimenta dirigir uma civilização? Se eu estiver enganado e forem capazes de qualquer tipo primitivo de reflexão, ainda assim creio que concordariam com as minhas opiniões.

21 de Fevereiro

Embora faça parecer que não, como adequado ao meu trabalho, tenho pena de matar mesmo nas circunstâncias em que isto se faz indispensável. Eu sei que os animais não pensam, porém, ao vê-los momentos antes de serem sacrificados sempre imagino que me olham com desespero e como se pedissem clemência. Sei que é besteira e que as limitadas mentes dos bichos sequer seriam capazes de compreender o conceito de “clemência” (nota: as vezes suspeito que nem mesmo sentimentos possuem, pois só nós, seres humanos, evoluímos neurologicamente o suficiente para sermos dotados de faculdades emotivas). Será isso reflexo de algum sentimento que me envergonho de assumir que tenho? Talvez seja aquilo a que chamam de “piedade”. Mas, por quê? Esses animais nem nome têm: chegam aqui semanalmente e ocupam o lugar de outros que já se foram! De tantas entradas e baixas, somos obrigados a numerá-los para manter o controle da população. E são todos tão parecidos – e, o pior, igualmente fedorentos e porcalhões! Logo, não é apego; só que, senão o é, o que é então?

Hoje foi sexta-feira, dia habitual para a vinda de novos animais para a casa. Como de praxe, o doutor os avaliou e indicou quais estavam saudáveis ou não. Infelizmente, temos que sacrificar os acidentados e os doentes. Houve, por exemplo, um pastor alemão que chegou febril e que mal se mexia. Por algum motivo, senti-me desconfortável ao vê-lo entrando na câmara. Mas também fiquei curioso e fui até o vidro acompanhar o processo. As energias corpóreas que poucos minutos antes pareciam estar se esvaindo de repente jorrou e o cachorrinho se debateu. Acho que sentiu dor.

Cruel, mas necessário. As jaulas não comportam todos os animais que mantemos – e olha que o governo não manda mais tantos quando mandava uns quatros ou cinco anos atrás! Fora que seria por demais oneroso, ou mesmo inútil, investir no tratamento médico de animais capturados nas ruas. A solução mais humana é aliviar de uma vez seus sofrimentos e sacrificá-los. Ao menos, é o que eu tento raciocinar nos momentos em que sinto-me atormentado pelo meu dever; quando não resolve, esforço-me por lembrar de que, no fim das contas, não são homens e sim meros bichos...

7 de Maio

Não lembro quem que disse que nada mais triste que um pássaro preso. A frase faz sentido: as aves aspiram tanto por liberdade que não conseguem se estabelecer num lugar, pois assim que chegam já querem partir para o próximo destino. Não são habitantes de país algum; pertencem ao mundo. Nesse sentido, imagine o quão agoniante deve ser o cativeiro para eles!

Hoje chegou muitos pássaros, todos feios. Ao que parece, estavam em bando, migrando para outro lugar para fugir do atual clima da nossa pátria (não sei como um ser pode achar o clima aqui ruim... parece-me tão agradável! Enfim, animais... quem os entende?).

Detesto eles. Embora alegres, sujam todo o lugar em que passam! Isso sem falar que são vetores de várias doenças, algumas das quais possivelmente ainda nem diagnosticadas! É inquestionável: pássaros são uma das grandes pragas da civilização.

27 de Julho

Sei lá por qual motivo, ultimamente chegaram muitos gatos por aqui. Não consigo mais relaxar: os felinos sempre me deixaram paranóico. Eles ficam estáticos, olhando atentamente o ambiente, como se fizessem cálculos intermináveis para alguma artimanha. Fora o talento que têm para se ocultarem e se esgueirarem por frestas antes de atacarem subitamente.

Quando criança, havia um na minha vizinhança que era muito branco e com olhos azuis. Embora até o achassem bonito, ninguém gostava dele – alguns até tinham medo. Era um pouco arisco, só gostava da companhia de outros gatos, sobretudo se fossem fêmeas. Tinha épocas em que sumia por dias, semanas ou mesmo meses e, quando voltava, não raramente estava um pouco machucado. Ninguém conseguia imaginar o que exatamente ele fazia quando desaparecia. Aliás, acho que ninguém fazia muita questão de saber.

Eu tinha certo medo dele. Às vezes, eu estava na rua e cruzava com ele. Eu tinha a impressão de que ele me espiava, observava-me atentamente e analisava cada movimento meu, como se planejasse fazer algo contra mim. Como eu adorava as épocas em que aquele maldito gato sumia!

Curiosamente, ele estava num dos primeiros carregamentos de animais que recebi aqui na casa, uns cinco ou seis anos atrás. Obviamente, envelheceu: alguns pêlos caíram, estava mais magro e com uma aparência cansada. Porém, mantinha aqueles olhos azuis que me fitavam inescrupulosamente. Embora saudável, mandei-o para o sacrifício. E, pela primeira vez na vida, não senti pena alguma de fazê-lo...

30 de Agosto

Acho que ELES se aproximam. Faz semanas já que não enviam animal algum para cá. O governo está tão preocupado com ELES que já se esqueceu de todo resto...

Trechos do diário de Hans Schröeger, oficial alemão que dirigiu um campo de concentração de 1939 a 1944 que mantinha principalmente judeus, ciganos e opositores políticos como prisioneiros. Mandou executar, dentre outras pessoas ilustres, o pastor luterano de ascendência judaica Franz Lindemann e o ex-membro do Partido Comunista Otto Hirschtein, coincidente seu vizinho durante a infância.

*****
Considerações finais: hoje, revendo alguns arquivos .doc com contos inacabados e esquecidos pelo meu computador, encontrei esse texto - que, para minha surpresa, estava completo e numa etapa já avançada da revisão, faltando, poucos acertos a serem feitos antes de publicar no blog. O arquivo datava de junho de 2010. Não sei porque nunca o postei... Tá certo, sei sim: porque é meio bobo de tão ingênuo. De todo modo, vale por um leve tom de humor negro.

9 de agosto de 2011

Ansiedade

Dentro de um cubículo branco
sem portas ou paredes
jogo-me e arrasto-me
nas paredes àsperas
a fim de derrubá-las

Cai-me o cabelo!
Jorra-me o sangue!
Firo-me por inteiro!

Percebendo-me não sucedido
em me libertar do recinto
Apenas aumento a fúria
com que me lanço
a este suplício!

22 de setembro de 2010

Efêmero prazer

Anulo-me pelo fútil
O êxtase do prazer
faz-me surdo
aos meus próprios gritos

Contudo, os berros ecoam
em meu reduto claustrofóbico
e assim os ouço
logo que o deleite se esvai

E então percebo
que ali só não estava
apesar dali eu ser

*****

Considerações finais: Sim, este é mais um suspiro de vida desse moribundo que o Textando se tornou. Não há como prever quanto ainda persistirá, uma vez que meu tempo escasseia e impede com que eu cuide dele com mais afinco. Gostaria de poder dar maior atenção, tratar o Textando com mais afinco... Mas, infelizmente, tenho prioridades e tantas responsabilidades que me ocupam tanto que sequer tenho condições de alimentá-lo. Talvez as coisas se acalmem, os dias passem sem tanta pressa e aí, quem sabe?, poderei me dedicar a um hobby que aos poucos venho esquecendo.

8 de maio de 2010

Do acaso que nos rege


Lanço o dado para o alto
Ignoro o resultado que virá
será 6 ou 1? Como saber?
E quando vier, o que fazer?
Aterrorizar-me, caso venha valor baixo
ou comemorar ou aliviar-me, caso alto?

Neste jogo no qual o dado dita a regra,
é possível preparar-me às adversidades
sendo várias as possibilidades futuras
- algumas impossíveis de prever?

4 de dezembro de 2009

Das conquistas humanas

Com as mãos trêmulas e doloridas
desprovidas do vigor de outrora
pego aquele troféu de ouro agora
das já antigas partidas vencidas

O ânimo esvai-se subitamente
O símbolo da glória, então,
Cai e torna-se pó rapidamente
Por conta da falecida mão

resquício físico da vitória,
Dele só resta cacos ao chão
A serem varridos da Memória

Agora, esta carne fria e dura,
Que tanto conquistou com bravura,
Que sobra? Nada! Tudo foi em vão!

*****

Considerações finais: Estou me conformando em aceitar que o pessimismo do meu espírito é incorrível, inclusive quando tudo vai bem. Apesar de já fazer um certo tempo em que não me aperecem problemas sérios (pelo contrário: situação melhor, só se eu ganhasse na mega-sena), as expectativas são sempre tristes e mórbidas.

20 de maio de 2009

O Presente no Tempo


Cada dia em que levanto e durmo
Cada fardo árduo e dolorido suportado
Cada prazer e alegria de que gozo
Distancia-se e envolve-se em brumas!

O cruel e constante fluxo que é o tempo
Descarta o agora e o hoje
Os condenam a deixarem de ser
E os servem às traças do olvido!

3 de novembro de 2008

Memória

A pintura acima reproduzida é de autoria de René Magritte, pintor surrealista belga. Olhando-a, observo um lado bem iluminado, no qual me é óbvia a presença de uma escultura de cabeça feminina; e, num lado oposto, uma escuridão que devora o objeto retratado e que me impede de vê-lo por completo.
O nome da obra, Memória, me incita à reflexão, como quase tudo aquilo que Magritte produziu: afinal, o que é isto que chamamos de “memória”?
Segundo o meu Novo Dicionário Aurélio (que, de novo, não tem nada, diga-se de passagem), memória seria, dentre outras coisas: “a faculdade de reter as idéias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente”. Ou seja, se trata da capacidade de lembrar.
Contudo, sendo a recordação a finalidade da memória, ela se trai: não consegindo impedir que as imagens que carrega consigo sejam corroídas pelo fluir do tempo, faz delas resistir apenas parcelas cada vez menores. Processo que, aliás, tende a culminar no esquecimento total – a desaparição para o indivíduo de todos os resquícios da existência passada daquilo que aprendeu ou presenciou.
Era isto provavelmente que Magritte queria expressar em seu quadro. As trevas que tomam parte da escultura representariam o inerente olvido que ataca os vestígios abstratos do passado contidos na memória que teimam em persistir. Desse modo, só uma parte é possível ter acesso: aquela que ainda consegue ser iluminada pela lembrança.