20 de julho de 2017

Eu sou a pedra de Sísifo
O globo de Atlas
O reflexo de Narciso
A fome e a sede de Tântalo
A águia de Prometeu

Cada suplício
Toda queda

Desabafo do pedestre

Cada vez que viro a rua 
Dobro a minha culpa 

Todo passo é descuidado 
E encontra concreto fresco 
Deixando a marca da pegada 
De modo a todos lembrar 
Que ali um dia pisei 

Se não posso voar 
Sigo meu curso caminhando 
Pisando, pisando e pisando 
- A inevitável crueldade dos pés!

27 de janeiro de 2017

O colecionador de conceitos

O sujeito, quando ainda cientista social recém-formado, percebeu-se tão fascinado por conceitos que resolveu os colecionar. Começou pelos mais fáceis de serem encontrados, considerados os mais primordiais a qualquer coleção de conceitos: poder, ideologia, classe social, Estado. Foi quando finalmente conseguiu o de orientalismo que percebeu que sua estante estava lotada. Logo, teve que comprar outra, para que coubessem McDonaldização, rotinização, anarqueologia, ato ilocutório e tantos outros que conseguiu na sequência. De repente, a segunda estante já não era o bastante, teve que comprar uma terceira, depois uma quarta, uma quinta... Fez de um cômodo vazio da casa um espaço para seu vasto acervo conceitual.
Orgulhava-se de sua coleção. Por alguns itens, evidentemente, tinha especial apreço. Deleitava-se pelos gregos, particularmente paideia e eudemonia, e pelos latinos, como potestas. Seu encanto maior era com aqueles raros, pouco conhecidos pelos mortais, a que, para conseguir, teve que se aventurar entre prateleiras empoeiradas de bibliotecas esquecidas de paragens inóspitas.
Sistemático com o seu material, assegurava-se de dispor todos os conceitos de forma ordenada, em conformidade com um complexo sistema de categorização que criou. Assim procedia como garantia de que, caso indagado sobre a posse de algum conceito por uma visita, poderia imediatamente localizá-lo e apresentar ao inquiridor. Corrigindo: mesmo quando não questionado, demonstrava alguns dos itens, independentemente do interesse ou curiosidade do convidado. Adquiriu fama de anfitrião inoportuno e pedante.
Além de devidamente organizados, mantinha-os impecavelmente limpos. Seu zelo por cada conceito era tanto que evitava o uso. Todo colecionador sabe que um artigo muito manuseado pode sofrer avarias que comprometem seu valor. Talvez por isso desenvolveu o hábito de substituir a utilização dos seus preciosos e sofisticados conceitos por memes e sofismas.

27 de novembro de 2016

O observador

            Nas profundezas minha caverna, encontrava conforto. A escuridão absoluta, o ar fétido e putrefato e o silêncio mórbido afastavam mesmo os seres repugnantes que se atraem pelas trevas e decadência. Distanciado do contato com os mortais e dos jogos de vaidade e poder dos imortais entediados, bastava-me a observação passiva de alento à solidão.
Jamais senti o prazer do sexo, mas já me satisfiz acompanhando orgasmos reais e simulados. Não tomei partido ante os horrores da guerra, mas acompanhei embates entre tropas e bombardeios. Nunca me identifiquei com grande causa, mas estive ao lado de revoltosos, revolucionários e conspiradores. Toda emoção que sentia se resumia à experiência do espectador, não do envolvido.  Se, por vez ou outra, atraiu-me a possibilidade de verter sangue e disseminar a dor apenas por poder fazê-lo, no fim das contas acabava optando por prosseguir na quietude. Era demasiadamente indiferente ao destino, julgava que qualquer ação causaria mais estorvo do que deleite. Minha vista a tudo alcança; esse meu olhar infinito a mim bastava.
Mas eis que um dia, os homens descobriram algo na minha caverna. Aparentemente, julgavam que as pedras que abundavam em meu recinto eram suficientemente valiosas para justificar os riscos da aventura em paragens hostis, de esgueirar-se nas trevas e na podridão, de promover a discórdia beligerante entre seus iguais, da exploração sem compaixão dos fracos e do enfrentamento de uma entidade ancestral que ali residia cujo poder não conseguiam dimensionar.
Poderia ter esmagado seus crânios com seus próprios martelos, rasgado suas frágeis carcaças com seus próprios serrotes e perfurado cada um de seus órgãos com suas próprias brocas. Minha caverna se transformaria em masmorra, a tortura se incorporaria à minha rotina pelas eras, os pesadelos que proporcionaria vingativamente seriam meu deleite... Em suma, eu seria capaz de causar sofrimento incomensurável pela ousadia tola de infringir meu isolamento voluntário. Mas qual seria a serventia de tal esforço?
Aprisionaram-me. De meu confinamento, observo a gradual destruição da minha antiga morada. Os mortais ainda hão de construir paredes que possam efetivamente me conter. Apenas a vontade seria suficiente para que as pedras do cativeiro se vertessem em poeira e que dos meus vigias restassem apenas os ossos. Porém, com qual propósito? Liberdade? Ilusão dos mortais para se proverem de algum ímpeto por realizações que, na verdade, jamais usufruirão; distração fútil para existências tão efêmeras. Se para mim basta querer para tudo fazer, só encarceram-me porque nada tenho a obstar.
O afã predatório da espécie causará sua ruína. Um dia, sobrará pouco mais que memória, arrependimento e lamento da miséria que trouxeram a si mesmos. Ou não. Aguardo indiferente à conclusão da tragédia humana para, em seguida, decidir o próximo alívio ao absurdo e ao tédio perpétuos.

18 de agosto de 2016

Um ônibus tomba 
Um barraco desaba 
Um rio transborda 
Uma rua esburaca 
Uma fome assola 
O Congresso incendeia 
Umas armas disparam 
Uma crise estoura 
A coisa desanda 
O desespero assombra 
Pouca esperança que sobra

 E A PORRA DO SUJEITO 
 SEGUE SEU RUMO 
CANTAROLANDO FELIZ 
 COM FONE NO OUVIDO!

5 de agosto de 2014

Desvios

Desviei o olhar
Desviei o caminho
Do desviado

19 de agosto de 2013

Ao otimismo de julho de 2013



Nas ruas e nas praças 
Marcadas de sangue 
Imperava um silêncio fúnebre e negligente 
Tão incômodo aos meus ouvidos 

Saí, então, sozinho à rua 
E marchei e gritei 
Um grito convocatório 
De pronto atendido 
Por outras vozes tímidas 

A cada passo da marcha, 
Mais calados ouvem o clamor 
E muitos, envergonhados de sua mudez, 
Juntam-se à marcha-coral 
E gritam comigo em uníssono 

Logo chegará o momento 
Que seremos tantos em marcha 
Que nosso grito reverberará 
Por morros e pelo planalto 
Comprometendo estruturas palacianas 
E daí então 
Ninguém haverá como alguém dizer 
Que não fomos ouvidos