18 de agosto de 2016

Um ônibus tomba 
Um barraco desaba 
Um rio transborda 
Uma rua esburaca 
Uma fome assola 
O Congresso incendeia 
Umas armas disparam 
Uma crise estoura 
A coisa desanda 
O desespero assombra 
Pouca esperança que sobra

 E A PORRA DO SUJEITO 
 SEGUE SEU RUMO 
CANTAROLANDO FELIZ 
 COM FONE NO OUVIDO!

5 de agosto de 2014

Desvios

Desviei o olhar
Desviei o caminho
Do desviado

19 de agosto de 2013

Ao otimismo de julho de 2013



Nas ruas e nas praças 
Marcadas de sangue 
Imperava um silêncio fúnebre e negligente 
Tão incômodo aos meus ouvidos 

Saí, então, sozinho à rua 
E marchei e gritei 
Um grito convocatório 
De pronto atendido 
Por outras vozes tímidas 

A cada passo da marcha, 
Mais calados ouvem o clamor 
E muitos, envergonhados de sua mudez, 
Juntam-se à marcha-coral 
E gritam comigo em uníssono 

Logo chegará o momento 
Que seremos tantos em marcha 
Que nosso grito reverberará 
Por morros e pelo planalto 
Comprometendo estruturas palacianas 
E daí então 
Ninguém haverá como alguém dizer 
Que não fomos ouvidos

29 de janeiro de 2013

Águas de Santa Maria



Dos olhos, nasce um rio
que desce ao palco
e segue seu curso
pelas serras com antenas de TV
até desaguar no mar de telespectadores.

Rio que sacia a sádica sede
de dinheiro
de sangue


17 de janeiro de 2013

Mesóclise

Mesóclise era uma senhora solitária e melancólica. Por qual motivo? Porque ninguém gostava dela. Para agravar, normalmente sequer lembravam que ela existia. Quando era vista em algum lugar, as pessoas achavam que era um bicho estranho e antiquado.

Por vezes, queria ser como suas irmãs. A Ênclise, embora um pouco alternativa, ainda assim estava presente em vários círculos sociais. E a Próclise, quanta inveja tinha da sua popularidade! Mesóclise não conseguia entender como podia ser a mais rejeitada da estirpe das Colocações Pronominais, sendo sem dúvida alguma a mais elegante.

Nos últimos dias, pensa muito em cometer suicídio. E ainda se deprime mais em saber que, caso o faça, ninguém sentirá sua falta. Não haverá solenidades, nem lágrimas. O corpo ficará estirado para sempre no chão, apodrecendo sem que alguém ao menos se importasse com o fedor. Sumiria totalmente da face da Gramática e da memória dos homens.

1 de abril de 2012

"Cidadão de bem"

Era uma pessoa direita, um verdadeiro “cidadão de bem” (seja lá o que essa expressão signifique), de cabelo curto bem penteado e trajando terno. Certa vez, trafegava pela Rio Branco às seis e meia da tarde, no conforto do seu carro com ar-condicionado. De repente, apareceram, da esquerda, jovens com os rostos pintados, narizes de palhaços, gritando palavras de ordem e empunhando placas e apitos.

Os jovens, aproveitando que os carros haviam parado no sinal vermelho, sentaram-se na rua, bloqueando o trânsito. O sol incidia sobre as suas cabeças, fazendo-os suar. Gritavam em coro frases de impacto, mas a pessoa direita não as ouvia. O “homem de bem”, ansioso por chegar logo em casa depois de um dia empenhado em coisas importantes (seu trabalho chato de contador), buzinou. Em seguida, vários outros motoristas também buzinaram.

Pouco depois, brotaram os homens do batalhão de choque da Polícia Militar, que juntos compunham uma massa uniforme que golpeava seus cassetetes em seus escudos. Disparam balas de borracha e gás lacrimogêneo. Alguns senhores que estavam no local, mas que não participavam do protesto, sofreram os efeitos do gás. Um jovem, de barba ruiva e cabelos desgrenhados, correu na direção oposta do batalhão e escorregou, caindo sobre o capô do carro da pessoa direita. Um policial o puxou pela camisa, jogou-o ao chão e golpeou sua cabeça com seu cassetete. O sangue escorreu pela testa do jovem.

Com os manifestantes dispersos, o trânsito voltou a fluir. O “homem de bem” chegou em casa a tempo de assistir seu bom Jornal Nacional. Assim, pôde assistir ao William Bonner explicando o ocorrido que presenciou: a ação policial “pacífica” garantiu com que os “baderneiros” não continuassem a causar congestionamento numa importante avenida carioca. E eis que, então, a pessoa direita aplaudiu o ato da polícia em favor da “ordem” e insultou os “vagabundos”.

19 de março de 2012

O soldado

Naquela época de guerra, quem servia em campo às Forças Armadas era acompanhado pelo medo constante de um encontro súbito com o inimigo, fosse por fatal casualidade ou por um ataque surpresa organizado pelos adversários. Eventualidades que normalmente ninguém reteria a atenção, como o som provocado pelo vento na vegetação, tornavam-se prenúncios megalomaníacos, mas falsos, de uma emboscada fatal.

Esse não era o caso do soldado – personagem de nome desconhecido, pois o registro de sua passagem no Exército se perdeu em meio aos numerosos papéis esquecidos nos arquivos militares. O soldado estava alocado num acampamento situado numa região de pouca relevância estratégica e muito recuado em relação à linha de frente. Logo, o estado de alerta e paranóia não seriam condizentes com a situação em que vivia na zona de conflito.

Certa vez, até se perguntou o porquê da acomodação de uma companhia naquele local. Sabia das ordens superiores de permanecerem ali até que recebessem, por transmissão de rádio, o comando para prosseguir. O soldado cogitou que o sinal para que avançassem não veio e jamais viria porque o movimento não faria mais sentido tendo em vista a nova conjuntura do campo de batalha; nesse caso, era mais cômodo para os estrategistas ignorá-los do que deslocá-los.

Por volta das seis da tarde de um dia qualquer, o soldado se recolhia. Normalmente, seu turno na vigília do acampamento iria até umas oito da noite, mas seus superiores o dispensaram de cumprir o restante do horário. “O serviço hoje foi puxado”, justificou um dos oficiais.

Mas não se sentia exatamente cansado. Os braços doíam de tanto tempo esticado segurando o rifle e os ouvidos ainda zumbiam por conta do estalo seco dos disparos. Porém, sua atenção não se dirigia ao seu corpo, o que quase anulava da consciência os desconfortos da fadiga física. Experimentava um alívio em seu espírito com o qual se deleitava.

Desde que o transferiram para aquele acampamento militar, vivenciava uma rotina determinada pelos oficiais responsáveis. Os dias eram exatamente uns como os outros, salvo que uns choviam e outros não: acordava, exercitava-se, alimentava-se, vigiava e dormia sempre nos mesmos horários. As folgas eram determinadas por escala e, ao menos nesse dia, tinha liberdade para decidir aquilo o que faria e quando. O que não significava muito na prática, pois não havia nada a ser feito nas folgas além do que já que era feito nos dias de serviço. Ao menos, não precisava fazer a ronda.

Não costumava recordar muito das coisas que fazia. A rígida estrutura que regia seu cotidiano se impunha igualmente aos mecanismos mnemônicos da mente: sumia todo o específico e não-repetível do seu dia, como o cadarço da bota que estava desamarrado e que, por isso, teve sua ponta submersa numa poça de lama. Persistia em sua memória somente o dever cumprido, sem qualquer resquício do como foi cumprido. Isto porque os detalhes ínfimos lhe eram insignificantes e desinteressantes.

Deitava-se sempre às nove da noite e dormia logo em seguida, sem pensar em nada antes ou, quando muito, num simples: “finalmente, cama!”. Ao menos daquela vez teve a chance de proceder de outro modo: repousou o corpo sobre o lençol uniformemente branco que cobria o colchão e reviveu pela memória seu dia. Sentia novamente o peso da espingarda em suas mãos, a força que a lançava para trás a cada disparo, a mancha de sangue que crescia na parede pintada de gelo e a carne humana que despencava perante seus olhos.

As imagens que recordava eram incompletas, pois, de todos os sujeitos contra os quais atirava, somente um tinha rosto: um homem muito pálido e narigudo. Possivelmente, decorria da pouca importância que dava aos traços de cada um. Sua consciência não retinha as fisionomias individuais, logo, percebeu a todos como uma massa uniforme – com exceção daquele cuja singularidade era inescapável, isto é, o branco de nariz protuberante. Foi somente a face desse, que tanto se diferenciava dos demais, a única capaz de ser notada e lembrada.

Ao reviver pela memória o episódio, tudo o que era exterior ao soldado era destituído de expressividade. Seus colegas não sorriam, não choravam, não hesitavam em apertar o gatilho, não faziam o sinal da cruz para os condenados; nem mesmo aqueles que iam morrer demonstravam algo, fosse medo, coragem, arrependimento, fé ou o que fosse. Afinal, no decorrer daquela tarde, atentou-se apenas a si mesmo, ao pálido narigudo que suava torrencialmente e ao primeiro disparo a atingir o corpo desse condenado, que perfurou-lhe o olho esquerdo.

Em meio às lembranças, adormeceu. Acordou no dia seguinte com os braços ainda doloridos, mas se sentido renovado. Durante o desjejum, refletiu consigo mesmo sobre a sensação, avaliando-a positivamente. Concluiu que a execução lhe fizera bem ao ânimo, ajudou-o a sentir que estava, afinal, vivo ainda. Ao terminar a refeição, durante a qual permaneceu em silêncio, cogitou que, talvez, teria outra oportunidade para matar até o final da guerra. A idéia lhe agradou.